3 de março de 2008

Pedro sorri

Pedro está preocupado. Preocupado, aliás, é eufemismo. Em sua sala de trabalho o publicitário mira-se no espelho e vê o resultado da noite anterior. Olheiras profundas, cabelo de vassoura, camisa amassada. A noite foi longa, na cama de uma desconhecida agradável, e não houve tempo para tomar banho. A menina, apesar de interessante, não tem potencial para se tornar apaixonante. O verdadeiro amor, este sim, Pedro marcou de encontrar em uma hora. Eles não se vêem há quatro meses, desde que ela resolveu terminar o namoro de três anos e meio durante uma viagem a Buenos Aires. E este reencontro é o motivo do desespero. E de suas olhadas desanimadoras ao espelho. Não quer parecer a imagem da desolação.

São 17h53. Faltam sete minutos para ir embora. Neste tempo, esquece um pouco sua (má) aparência e diversos desejos bons vêm à cabeça. Ela deve estar linda. Deve estar feliz profissionalmente. E deve estar triste amorosamente. Pedro sorri.

Mas, ao descer do elevador do prédio em que trabalha, o grande espelho a sua frente o relembra que ela não pode o ver assim. Então decide ir a um shopping, ao lado do seu trabalho. Primeira parada: Hering. Compra uma camisa cinza, nem tão larga e nem tão justa. Gosta do que vê, afinal cultiva um estilo sóbrio.

Parada número dois: banheiro. O cara, novamente com o espelho a sua frente, molha muito o rosto e o cabelo. Tira oito papéis descartáveis do suporte e vai secando enquanto modela os fios. O resultado também é bom. Ao menos, parece que tomou banho nas últimas 24 horas.

Parada três, e esta a mais pouco usual aos seus hábitos: Boticário. Em geral, Pedro recusa-se a usar perfume. Mas lembra que sua amada, no começo do namoro, reclamava desta condição. Então finge que quer experimentar alguns para seu pai (ele mente que era aniversário do velho). A vendedora espirra alguns nos papéis próprios para este fim. Quando encontra o que mais lhe agrada, pede para ela borrifar em dois papéis. E diz que já volta. Já no corredor do shopping, Pedro passa os papéis no pescoço, no pulso, na barba. Agora já se sente decentemente preparado para encará-la.

Entra no carro. Falta apenas meia-hora para chegar ao local marcado, e atraso é algo abominável para ele. Chove uma chuva forte em São Paulo. Ele buzina, quase põe o tronco inteiro para fora para xingar o motorista da frente, que insiste em dar passagem a outros carros. Um marronzinho olha feio e saca de sua caderneta de multas, mas é apenas uma ameaça. Pedro desculpa-se, respira fundo e tenta manter a calma de um praticante de yoga. Logo ele, que costuma ter a paz de um torcedor do Corinthians em dia de final com o Palmeiras.

Chega em frente ao estacionamento do bar combinado. Entre deixar as chaves com o motorista e entrar no bar, passam séculos. Nos dez passos que dá até a entrada, arrepende-se, fica bravo, sente saudade, pensa em agarrá-la, planeja fugir. Não sabe se a menina o desprezará, será blasé, o abraçará firme ou se irá pedir de joelhos para voltar. Empurra a porta de vidro e procura seus cabelos pretos entre as mesas redondas (e desconfortáveis) daquele bar metido a besta. Não encontra. Apesar de odiar atraso, sabe que este é um dos costumes da amada. Releva essa característica e põe-se numa mesa. Pede água com gás. Pelo nervosismo, torna-se praticamente um craque em origami, ao fazer as mais abstratas formas nos guardanapos. A garçonete olha feio.

Irrita-se novamente ao olhar o relógio com o logotipo da Brahma que está acima do caixa. A espera já é de 17 minutos. Acha um absurdo entrar em duas lojas, gastar dinheiro, quase ser multado, e chegar no horário, enquanto a menina que teoricamente não tinha compromisso algum no dia – ela está de férias – não se preocupa em estar às 19h em ponto.

Quando pensa em ir ao banheiro para lavar o rosto e arrumar novamente o cabelo, eis o grande acontecimento: ela entra, mas ainda não o percebe no bar. Pedro, que já havia se semi-erguido da cadeira dura, senta-se novamente. Em milésimos a analisa. O cabelo está bem curto. Ela deve ter emagrecido uns dois quilos. Mudou a armação dos óculos, agora para um modelo mais simples, sem cores gritantes. Está bronzeada, mas nem tanto. As roupas são elegantemente alternativas, com uma calça mole de um tecido que não identifica, uma camiseta estranha com a imagem de Mao Tse Tung e um tênis All Star amarelo. Algo que ele traduz como “para fazer charme, mas não parecer atraente”. E finaliza em seu pessimismo habitual: “para se afastar de mim”.

Ela o reconhece no bar. Depois de meses, este é o primeiro contato visual entre os dois, excetuando suas encaradas diárias na foto três por quatro que carrega na carteira, que o lanceiro da Praça Clóvis insiste em não roubar. Eles se cumprimentam com um abraço e um beijo no rosto, há quilômetros da boca. Ela dá um sorriso largo, cativante. Ele sorri de canto de boca, tentando parecer firme, mas não efusivo.

Pedro diz “Olá, tudo bem?”, enquanto reúne com a mão direita a bagunça de guardanapos que deixou na mesa. Ela sorri novamente, por perceber que foi uma das frases mais artificiais que já falara na vida. Ainda o conhece bem, e manda um “Primeira coisa, Pedro: relaxa”. Pedro não relaxa. Apenas se irrita com aquele poço de segurança. Mas disfarça.

“Como está no escritório?”, pergunta, agora com uma voz mais natural. Ela diz que tudo está teoricamente bem, mas que já se encheu do chefe, da dinâmica de trabalho e das estagiárias. “Quero prestar concurso. É a melhor solução pra quem se formou em Direito”. Pedro, enquanto responde “Ah, acho uma boa solução”, pensa: “Como mulher adora reclamar”. Lembra-se das queixas mais usuais: ela não gostava que ele deixasse a barba grande, que tivesse mania discutir até com o dono da locadora por não ter o mais recente lançamento e que gostasse de andar de calça jeans e Havaianas.

Ela faz a mesma pergunta. Pedro não gosta de falar de trabalho, talvez por medo de desdém alheio. Então, diz apenas que está tudo ótimo e que há um novo projeto de uma empresa pública para promover o minério de ferro brasileiro no Mercosul. A menina deseja sorte. O garçom chega com o cardápio.

Antes, Pedro costumava roubá-lo e decidir pelos dois. Agora, porém, espera pacientemente sua escolha. Ela passa os olhos, fica em dúvida, filosofa sobre a diferença entre lula a doré e mariscos, pergunta ao garçom se o salmão é realmente macio. Pedro, aproveitando que o homem da gravata borboleta está à mesa, pede nhoque ao sugo, para adiantar. Ela então diz: “Ah, quero o mesmo”.

Pedido feito, conversa novamente à mesa. “Está apaixonado por alguém?”, indaga a menina de cabelos agora curtos. Pedro assusta-se com a pergunta direta. E, pior: não sabe qual é a resposta certa. A questão desestabiliza toda sua tática, que era a de parecer leve no começo e, devagarzinho, ir seduzindo-a. Desconcertado, diz que se envolveu com uma menina de Curitiba, mas que não deu certo.

Com medo, sente-se na obrigação de fazer a mesma pergunta, apesar de não querer saber a resposta. Ele se lembra que, há duas noites, teve um pesadelo, que o fez acordar com os olhos arregalados. Nele, sua amada conversava consigo na cama. Segurando firme sua mão, dizia: “Eu estou apaixonada por outro cara. Muito. E quero me casar com ele, constituir família. Ele mora em Bauru. Estou me mudando para lá, Pedro, e nada vai me impedir”. Além do susto, pensa até agora por que seu inconsciente escolheu Bauru, já que a única coisa que conhece desta cidade do interior é o Noroeste, o pequeno time de futebol.

Mas não se contém. “E você? Está apaixonada por outro?”. Ela sorri, balança a cabeça como se reprovasse um pouco a pergunta e manda: “Para que quer saber?”. “Simplesmente porque você também me perguntou. Quis tornar o papo recíproco, ué”. Pedro, que sempre costuma se enrolar em momentos tensos, sente que, enfim, conseguiu dar uma boa resposta.

“Ah, Pedro. Vamos mudar de assunto, tudo bem? Sei que você é muito curioso. Se eu responder, não vai mais parar de perguntar”. E a curiosidade – ainda mais a que pode fazer mal – realmente é uma característica do publicitário. Resolve mudar o tema, mas não sabe mais sobre o que conversar. Lembra como a conversa fluía fácil antigamente. Como passavam noites inteiras falando mais do que o Milton Neves aos domingos, enquanto ela dava gargalhadas. Como música, futebol, animais e até tênis de mesa eram assuntos para horas. Agora, sente-se como se estivesse recebendo um chefe de estado. Aquela mesa parece maior e mais larga do que quando namoravam. A menina, com quem tinha tanta intimidade, soava quase como uma semi-conhecida. Era mais uma alheia naquele bar em que ele sempre odiou os freqüentadores, mas que costumava ir por sua causa.

Meio desconfortável, Pedro abaixa o olhar enquanto a menina o encara firmemente. Vira-se para o lado para escapar daqueles olhos castanhos. Vê pessoas entrando. Uma moça de uns 30 e poucos anos, gorda, com um decote enorme em um vestido todo vermelho entra no bar. Uma loira, baixinha, sem apelo sexual algum, segue atrás. Elas já entram com sorrisos largos, como se estivessem no ambiente para caçar homem. No balcão, estão quatro presas (ou predadores) de gravata, sendo dois semi-carecas, falando alto sobre como a Juliana Paes “tem cara de puta”. Pedro despreza os dois grupos. Mas, por estar naquela situação embaraçosa, sentindo-se paralelo ao mundo normal, sente vontade de formar um quinteto com os prováveis gerentes de novos negócios, preocupar-se somente com as quedas da Bovespa e sentir-se sinceramente a fim da gorda de vermelho. Ao menos assim se sentiria confortável. E feliz.

“Pára de ficar prestando atenção nos outros!”, brada a chefe de estado. Pedro respira fundo, olha para o outro lado e percebe o garçom equilibrista vindo com os dois nhoques. Prefere manter-se mudo até o prato chegar. Ela ainda pede um vinho, enquanto o rapaz prefere uma caipirinha de abacaxi. Os dois comem rápido.

Ao fim do jantar, a menina diz: “Nossa, estranho a gente falar tão pouco, né? Posso citar Chico? Realmente é desconcertante rever o grande amor”. A sugestão de que ele ainda era seu grande amor, que ele esperou por quatro meses, inacreditavelmente não faz efeito algum. Ele sorri enquanto pensa: “Desconcertante é não reconhecer o grande amor”, e continua tomando a caipirinha, cada hora mais aguada.

Não reconhecer a menina que tanto tomou conta da sua cabeça é realmente desconcertante, e lembra de diversos momentos destes quatro meses. No começo do término, em que sentia que aquele era o maior amor do mundo e estava convicto de que a dor jamais passaria. Pouco depois, quando tinha certeza de que o certo era voltar, e que era absurdo somente ela não perceber essa verdade absoluta. Tinha certeza que seriam extremamente felizes. Quando dormia ao lado do celular e rezava para Santo Expedito, Santo Antonio, Yemanjá e para Deus e o diabo para aquele troço vibrar. O que sentia ao ouvir a seleção musical que batizou como “a mais triste do mundo”, que continha “Não fala de Maria”, “Passarim” e “Samba do grande amor” como carros-chefes. Na mesa cada vez mais quilométrica, fita a menina. Ela diz que precisa ir embora, pois tem de acordar cedo amanhã. Também o convida para se reverem, talvez para assistir a um filme no cinema. Ele balança a cabeça afirmativamente. A ex-amada pede a conta. Pedro sorri.

3 comentários:

Anônimo disse...

Que legal!! Além de tudo é contista é? = )

Beijos, jornalista-cronista.

Z.

Anônimo disse...

Pelo o q já observi de vc, se trata da mesma pessoa.

nina disse...

Parabéns! O conto apresenta características tuas: rebeldia doce,capacidade de surpreender e perfeição no uso da palavra certa.Os parágrafos finais..com exceçaõ do último que adorei..poderiam..talvez.. ser mais enxutos..no mais está ótimo! Sucesso !